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Gregão - Qua, 16 de Novembro de 2005

sexta-feira, 17 de setembro de 2010
Qua, 16 de Novembro de 2005 00:00
Gregão
Gregão
Não parece, mas a carreira do DJ e produtor Grego já tem 32 anos. Sim, são mais de três décadas registrando a sua marca na cena eletrônica, ampliando seus limites e conquistando espaços cada vez mais distantes (e conceituadíssimos !!!).

Confira na íntegra a entrevista exclusiva que Grego concedeu à DJ Sound.

Conte-nos sua história...
Grego: a música vem desde os oito anos, quando comprei o meu primeiro compacto, que já foi uma coisa mágica... o início de carreira foi em outubro de 1974, aos 17 anos, na boate La Ronde. Era a entrada da música eletrônica invadindo a noite, tomando o espaço das bandas.
Eu comecei tocando. Naquela época, nem mixer a gente tinha, era bem primórdio dos 'dinossauricos' DJs... não tínhamos mixers, trabalhávamos com corte, tínhamos ali um gravador, um toca-discos, e aí cortávamos. Pouca gente tinha acesso a dois toca-discos na época e o mixer mesmo era algo bem difícil. As primeiras dificuldades eram mesmo técnicas, para que um DJ pudesse trabalhar... nem nomenclatura de DJ tínhamos nesse momento. Éramos chamados de sonoplasta, depois viramos discotecários para então sermos denominados DJs.

Como é que sua família está inserida no contexto musical? Quais foram as suas primeiras influências?
Grego: meu pai cantava na igreja. Ele era uma pessoa que estudou Teologia, sempre puxava os cantos gregorianos na igreja ortodoxa cristã. Foi aí que começou a minha primeira ligação com a música.
Depois sei lá, da música grega mesmo, pelo fato dos gregos dançarem, nas festas, quebrar prato, fazer aquela super festa de casamento. Como brasileiro, encontrei o carnaval.

O que a sua família achou quando você resolveu assumir a carreira de DJ?
Grego: Louco! Me acharam louco por abandonar a faculdade e seguir a carreira de DJ... A minha família ficou uns três anos sem falar direito comigo. Foram me procurar quando eu já estava bem considerado, pelos idos de 1978, quando fui eleito o melhor DJ. Aí eu já tinha carro, já estava com a vida mais arrumada.

Você chegou a começar a faculdade?
Grego: Não. Eu estava para começar e acabei largando no vestibular. Vestibulando para atacar e desisti. Eu já estava trabalhando a noite, então eu saia às 6h da manhã estava off da boate, aí eu entrava às 8h na escola. Imagina? Aí agüentava das 8h às 9h30 e 9h30 para às 10h eu 'pingava' na carteira... Nessa de 'pingar', o professor deu uma reguada na mesa para me acordar. Na hora que despertei, todo mundo rindo, eu falei: 'sabe de uma coisa, eu não vou pagar esse mico aqui'. Também já via que o pessoal estava deixando eu trabalhar, eu estava me alimentando do meu trabalho. Eu sabia que era uma decisão difícil, desconhecia o futuro daquilo que eu estava começando a fazer. Tudo foi acontecendo de acordo com a busca de uma evolução profissional, porque você evoluiu profissionalmente...

Quais são os principais remixes que você já fez?
Grego: Não dá para a gente poder listar isso. É complicado dizer, porque na minha vida eu já passei os 400 remixes. Pode-se dizer que já trabalhei com 60% do casting brasileiro, a nata deles... Foi isso que também me deu abertura depois a vir trabalhar com os internacionais de alto nível, porque essa experiência que adquiri através do tempo, com os remixes brasileiros, é o que me deu gabarito para poder chegar em 95 nos Estados Unidos e começar a enfrentar estúdios e masters de Nova Iorque.
Nunca tive uma reprovação de um trabalho, de um remix, nunca teve nenhuma negação...

Quais foram os projetos inéditos que você fez aqui no Brasil?
Grego: Quando eu vim para o Brasil, eu estava com a idéia de fazer um negócio de Bossa Nova com o lance de Eletrônica. Foi quando estava no Rio de Janeiro e encontrei todos esses masters para eu poder fazer esse trabalho. Aí surgiu o álbum Tom Jobim Lounge, que teve mais de 40 mil cópias vendidas. Esse foi o primeiro trabalho na minha volta ao Brasil. Esse projeto foi praticamente o caminho que me proporcionou a vir a trabalhar com o DJong (mais novo projeto com a produção de Grego). Eu estava com essa turma, Lincoln Olivetti, Junior Mendes, no Rio de Janeiro, fazendo esse eletroacústico, já com as histórias da Bossa Nova. Dentro desse contexto todo, o DJong estava desenvolvendo o projeto dele juntamente com o Junior e com o Lincoln. Uma coisa puxando a outra, vindo em uma nova mixagem...

Como foi montar a parceria com o DJong?
Grego: No DJong é onde a gente termina, é o que a gente está no momento. Parece fácil, mas qualquer projeto desse é um ano, um ano e pouco para ser desenvolvido. O disco do Tom, com autorização e tudo mais, demorou um ano e meio para ficar pronto. Com o DJong também, desde ele finalizar perfeitamente toda a parte acústica, elaborar todos os arranjos... Depois colocarmos toda a parte eletrônica, puxando uma coisa mais noite, pista, DJ... Para ficar bom, não adianta fazer com pressa. Às vezes, você consegue o resultado em uma semana, às vezes você precisa de duas, às vezes você precisa até a terceira para poder chegar lá. Não dá muito para explicar, mas eu tenho um controle de qualidade no que eu faço. Enquanto o som não está caindo legal na minha orelha, não deixo pra lá. Tenho que ter certeza do que vou mostrar para os meus amigos profissionais.

E quantas produções você fez ao longo da carreira?
Grego: é muito gente. São 32 anos, estou com 50. É mole?

Em quais FMs você trabalhou?
Grego: Comecei em 1978 com radialismo. Vamos lá: Excelsior FM, isso é máquina de som, é muito boa; Difusora; Record, ainda com Paulo Machado de Carvalho, nem Sílvio Santos tinha comprado, nem os padres tinham invadido, era bem nobre o recinto; Jovem Pan, fazer o famoso Jovem Pan Disco Dance, o programa mais famoso na época Disco; Antena 1; Bandeirantes, que virou Band FM; Pool FM, essa daí o pessoal rasga seda por causa dela, foi uma rádio que durou dez meses e em seis meses a gente chegou em sexto lugar saindo do "não-existente" e Metropolitana. De resto eu fazia programas de várias rádios, Transamérica, Manchete, Cidade, sem estar residente mesmo.

Qual é a sua opinião sobre a tecnologia musical?
Grego: Acredito que já passamos até o avanço. Tem-se tanta coisa hoje em dia que está em excesso. Acho que vai do bom gosto e da seriedade de quem está pilotando isso, porque se não você transforma o seu trabalho em uma comédia. As limitações quase são inexistentes. Por isso, vai do bom senso de usar essas tecnologias todas, porque não tem mais limite. Realmente com os computadores, com os softwares, com os plug-ins, todos que entraram, a coisa ficou muito tensa e ao mesmo tempo perigosa também, porque é muito fácil de você fazer uma coisa errada porque você tem "n" itens.

Você acha que o excesso de material acaba confundindo quem faz a música?
Grego: Sim. Acabam até exagerando, como muita coisa que tem aí. Pecam pelo exagero. Ou as pessoas também não têm criatividade, e se pegam nesse exagero da própria máquina. Mas tem gente muito séria, fazendo coisa muito boa. É com essa manada que procuramos andar, porque hoje em dia você tem que tomar cuidado com tudo o que você faz, onde você cola seu nome, porque uma coisa traz a outra. A pessoa vê um nome. Antigamente, quando os discos tinham mais créditos, existiam 40 músicos de crédito, a gente comprava os discos não pelo artista, mas pelo time. Você olhava o time que estava tocando. Aí você via que, para esse cara estar cantando com tais profissionais, é porque ele era bom mesmo. Muitas vezes aparecia um cara que você não sabia quem era, mas aí você olhava o time. Hoje também é o que vai te dando o respeito e a qualidade. As pessoas olham o nome como uma marca, associada a essa marca, vem o tipo de música e o tipo de qualidade que o público procura ouvir.

O que você acha que é o futuro da música?
Grego: Se eu tivesse essa bolinha de cristal... A música é só futuro, acho que não tem como você voltar nada, não tem limites. A música é sem limites. Daqui a uns 20 anos as pessoas continuarão a inventar alguma coisa. Nem sei se pode ser música, pode ser só ruído mesmo, 'pronto, já encheu o saco a música, vamos ouvir ruídos agora'. Vai chegar num ponto que não vai ser considerado uma música, uma forma, uma transmissão sonora...

Mas você acha que vai precisar do álbum, da forma física, ou com essa digitalização não será necessário o cd?
Grego: a digitalização não me satisfaz, no que diz respeito a superação do som do vinil. É outra coisa, digital é digital, análogo é análogo. O digital ele pode deixar até mais 'bonitinho', mas é um 'bonitinho frio'.

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